Tradição: Subida da Serra de Várzea da Pedra no dia de São José

22 de março de 2017 às 20:33

O sertanejo tem como uma de suas características mais marcantes a fé. E ela se torna ainda mais perceptível quando o assunto é chuva. Todo sertanejo renova sua fé em um bom inverno a cada novo ano. E como não poderia de ser, o padroeiro do Ceará, São José, é o mais homenageado nesta época do ano.

A equipe do SerTão Para Ser do Ceará esteve presente em um dos mais tradicionais festejos à São José do Sertão Central. É a subida do serrote da Várzea da Pedra, no Distrito de Manituba. Anualmente, em 19 de março, crianças, adolescentes, adultos e idosos sobem a serra para pagar promessas, agradecer pedidos ao Santo e ainda suplicar por chuvas. Não é uma subida fácil, o serrote é cheio de pedras e com as recentes chuvas que caíram na região deixaram o caminho bastante escorregadio, o que não impede a subida que para alguns é rápida, mas para outros é um teste de fé. Na verdade, a ação de subida do serrote também pode ser considerada como uma prova de como andam as atividades físicas de quem aceita o desafio da subida, que é íngreme. A vegetação também é um dos obstáculos a serem vencidos até alcançar o ponto mais alto do serrote. Há quem diga que subir seja melhor que descer e outras utilizam o velho ditado: “Pra descer todo santo ajuda”. Fato é que vale a pena o esforço, a recompensa é imensa com a exuberante paisagem do Sertão verde, cheio de vida.

O início

A tradição começou há vários anos, quando o senhor Clovis Tavares, residente naquela localidade fez uma promessa de construir no cume daquela serra uma igrejinha em honra a São José. Claro que nem de longe seria uma tarefa fácil, pois à época, a situação era difícil, como exemplo, a água utilizada para a construção da pequena capela era levada em jumentos, que com muita dificuldade chegavam ao topo. Mas, nada impediu aquele sertanejo predestinado de finalizar a construção e realizar seu desejo. A partir de então, aos poucos, a tradição foi sendo criada. Atualmente o local é cuidado pela família do criador da igreja, a família Tavares, e é perceptível o zelo com que é mantido o lugar. Todo 19 de março de cada ano, a família prepara a subida para que os visitantes tenham menos dificuldades possíveis na hora de realizar o trajeto. Do pé da serra até o seu mais alto ponto, os organizadores da subida puseram quinze cruzes, que simbolizam a via sacra e são pontos marcados por orações e momentos religiosos.

Orações

Várias celebrações da palavra ocorrem durante todo dia. Um dos mais entusiastas é Eliseu Ramalho, morador da comunidade de Manituba, cujo padroeiro é o Sagrado Coração de Jesus. Ao ser questionado há quantos anos organizava a celebração de São José em cima do serrote, Eliseu não soube precisar, mas garante que já fazem várias décadas. Eliseu, mais que tudo, carrega no desejo a manutenção desta tradição da subida. Líder nato de movimentos religiosos, Ramalho carrega a missão evangelizadora no entorno daquelas comunidades, como um pastor que cuida de suas ovelhas, em um verdadeiro sentido de buscar a comunhão fraterna dos moradores.

Outra figura que sempre está presente anualmente no 19 de março, em Várzea da Pedra, é o agricultor Deuzimar Batista, morador do Distrito de São Miguel. Há vinte anos, nesta mesma data, ele se desloca de onde mora até o serrote para pedir um bom inverno a São José. A viagem é longa, são 25 quilômetros percorridos a cavalo. Segundo ele são necessários dois dias para completar o trajeto de volta para casa, mas nada disso diminui sua vontade de estar ali e mais, seu Deuzimar afirma que até quando puder continuará nesta tradição.

Neste ano, os agradecimentos foram mais que preces, devido à regularidade do inverno, onde muitos reservatórios que se encontravam secos há alguns anos, obtiveram recarga ainda que em pequena quantidade. E quanto às lavouras, se a situação continuar como hoje, a agricultura terá uma boa colheita, o que não ocorre nesta região a mais de cinco anos.

Transportes

Outro aspecto que chama atenção são os transportes utilizados na locomoção até o ‘pé’ do serrote. A quantidade de motocicletas estacionadas chega a impressionar, mas é possível ainda ver vários cavalos descansando a sobra das árvores, bicicletas e há aquelas pessoas que se deslocam de suas residências a pé rumo ao Serrote.

A data é sem dúvida especial para os devotos de São José. Muitas pessoas sobem o monte descalças até de costas, pagando promessas. Há também aquelas pessoas que vão simplesmente pela a aventura e com certeza não se arrependem.

Melhorias

Uma ideia proposta em anos anteriores pelo antigo Pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, Adailson Nogueira, era de que fosse arrecadado dinheiro para construção de uma igreja maior, além de restaurante lá em cima, e assim, abrigar em melhores condições a todos que sobem, além de se tornar um grande atrativo turístico para a comunidade em outras épocas do ano. Mas, até então, a proposta ainda não ganhou corpo. Ambulantes faturam com a peregrinação dos fieis. Lanches rápidos, sucos e água, fazem parte dos produtos vendidos lá em cima.

É perceptível a alegria e satisfação das pessoas que mesmo cansadas, suadas e quase esgotadas, esbanjam por estar exatamente naquele lugar, com uma paisagem de encher os olhos, de onde é possível olhar para o horizonte e enxergar uma infinidade de lugares, fazendas, açudes, e até mesmo a cidade de Quixeramobim. Um lugar, sem dúvida, mais perto do céu.

Repórter Ceará – SerTão para Ser do Ceará

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