Editorial: Água e gestão – O retrato da crise hídrica em Quixeramobim

16 de setembro de 2019 às 17:23

A Barragem de Quixeramobim, responsável pelo abastecimento da sede urbana do maior município (em território) do Sertão Central, alcançou seu menor volume desde o dia 19 de maio de 2018 (96,68%), chegando a 2,73% no último dia 12 de setembro. Diante de tal cenário e prestes a entrar em seu volume morto, onde os canos não conseguem captar água, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) iniciou o processo de racionamento hídrico.

Apesar de ser uma solução mitigadora, a fim de diminuir o impacto sobre a quantidade de água utilizada pela população, de modo que o reservatório não venha a secar de imediato, o racionamento tardou para ser iniciado, visto que começou no dia 1º de setembro, quando a Barragem estava com 3,13% de sua capacidade. Além disso, não se trata de uma solução efetiva, ou seja, que venha a resolver, a longo prazo, o problema da pouca disponibilidade de água.

A irregularidade das estações, o clima semiárido, o consumo de água per capita de 137,5 litros por dia antes do racionamento, o elevado índice de evapotranspiração e as altas temperaturas contribuíram para que a situação hídrica do Coração do Ceará se tornasse crítica. No entanto, a omissão por parte da entidade competente é o fator que mais pesa na balança do desequilíbrio de ações da gestão municipal.

Com isso, a efetividade do racionamento não é acentuada – mesmo que tenha reduzido o consumo de água per capita, em média, para 75 litros por dia – e algumas questões são levantadas pela população sobre ações que deveriam ter sido realizadas antes do município chegar na situação atual. Uma delas, é o desassoreamento.

Ponto polêmico questionado pela população para todos os gestores que estiveram a frente do Executivo Municipal, o desassoreamento aumentaria a capacidade hídrica do reservatório, projetado para comportar 54 milhões de metros cúbicos, mas que, atualmente, só possui 7,88 milhões de m³. Para realizar o processo, conforme as administrações, o custo seria superior a construção de outra barragem. No entanto, valores nunca foram especificados e o assunto nunca chegou a ser esclarecido, de vez, para os quixeramobinenses.

Comparando: Em 1º de janeiro deste ano, a Barragem estava com 2,42 milhões de m³ (30,77%). Caso, com o desassoreamento, a capacidade aumentasse para 15,76 milhões de m³, na mesma data e com a mesma cota, o volume estaria em 4,84 milhões de m³, ou seja, o dobro.

Outra dúvida, é o longo intervalo de dias entre o abastecimento de setores, o calendário definitivo do racionamento, visto que o mesmo já foi alterado duas vezes após o início do processo, e a dificuldade da água chegar nas residências, já que o abastecimento da cidade está sendo feito, atualmente, pela Barragem, o Açude Pedras Brancas, em Quixadá, através da adutora, poços artesianos e carros-pipa.

Além destes, a construção das comportas do reservatório é uma questão que paira há anos pelo município, pois a estrutura elavaria o tamanho da parede de contenção e, assim como o desassoreamento, também aumentaria o volume da Barragem, impedindo que a água transbordasse quando atingisse a cota de sangria atual.

Fato é que, de tão preocupante que é a situação, o município integra a lista de cidades em situação decretada de emergência tanto do Governo do Estado (reconhecido no dia 26/06) e do Governo Federal (reconhecido em 31/07) por 180 dias.

Quixeramobim vive uma crise como não vivia há anos. Ou ações são minimamente planejadas pelas autoridades municipais para que a situação seja amenizada até, no mínimo, a quadra invernosa de 2020, ou a cidade entrará, no mais caótico dos cenários, em um colapso hídrico. O que ninguém deseja que ocorra.

Editorial do Repórter Ceará (Foto: Elistênio Alves)

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