Quixeramobim e o enfrentamento ao Novo Coronavírus: O que deu errado?

Maslowa Pinheiro Rodrigues • Colunista do Repórter Ceará
24 de agosto de 2020 às 17:58 4

Em março deste ano, o mundo inteiro recebeu, com muita tensão, a notícia de que estávamos vivendo uma pandemia, isto é, uma epidemia a nível global de um vírus surgido na China, em dezembro de 2019, até então desconhecido, altamente contagioso e letal. Tal vírus, sendo uma variação do Coronavírus, responsável por provocar, principalmente, doenças respiratórias, foi então denominado de Sars-Cov-2, e a doença por ele provocada, de COVID-19.

Não demorou para que todos os países começassem a se articular para tentar conter ou, na hipótese mais realista, diminuir os impactos do novo vírus em seus territórios.

No Brasil, e isso é fato, tivemos tempo mais que suficiente para tentarmos nos preparar para a chegada da COVID-19, que mais dia, menos dia, haveria de ultrapassar as nossas fronteiras.

O Governo do Estado do Ceará, diligentemente, tomou todas as providências necessárias, seguindo todas as recomendações da OMS e de outros especialistas no assunto, ao baixar decretos suspendendo aulas presenciais, fechando o comércio não essencial, equipando hospitais, incentivando o distanciamento social e, em algumas cidades, recomendando a adoção do chamado “lockdown”.

Mas o que aconteceu com as cidades do interior do Estado, mais precisamente, o que aconteceu em Quixeramobim?

Até que se tentou, no início, no frisson da notícia sobre a chegada do vírus ao País, entrar em sintonia com o que se determinava os decretos estaduais e com as recomendações sanitárias: suspendeu-se as aulas presenciais em escolas públicas e privadas, fechou-se parcialmente o comércio, incentivou-se o uso de máscara, álcool em gel e distanciamento social.

O município também recebeu ajuda do governo estadual e federal, com ampliação de leitos, compra de equipamentos, compra de testes e verbas destinadas ao enfrentamento da doença.

Porém, Quixeramobim conta com 1836 casos confirmados da doença, tendo registrado 86 óbitos até o momento.

Como uma cidade de um pouco mais de 80 mil habitantes, que recebeu recursos e teve tempo de se preparar para enfrentar este inimigo invisível chegou a estes números alarmantes?

Afinal, o que deu errado? Faltou gestão? Faltou compreensão das pessoas? As duas coisas?

Sim, a meu ver, falhamos na gerência da crise, mas também falhamos como cidadãos.

Temos uma gestão que, infelizmente, se perdeu. Ficamos “no escuro” por muito tempo, sem saber ao certo o que, de fato, estava e está sendo decidido sobre o enfrentamento da doença em nossa cidade.

Em determinado momento, a população foi Informada, por exemplo, que iriam reabrir, prematuramente, setores não essenciais, tendo, inclusive, neste episódio, a Procuradoria Geral de Justiça do Ceará se manifestado, recomendando a não reabertura e a observação ao decreto estadual em vigor, que deixava claro o fechamento de tais estabelecimentos.

Houve muita confusão e desencontro de informações e, ainda, pouca fiscalização, o que deu abertura para que boa parte das pessoas passassem a desconsiderar a periculosidade do vírus e a retornar para as suas atividades normalmente.

Há, também, uma baixa testagem, o que dificulta muito o controle da doença, já que não sabemos com quantas pessoas alguém que testou positivo esteve em contato, para que se possa isolá-las, com o fito de tentar conter a “onda” de contágio.

Vivemos verdadeiramente uma insegurança quanto as medidas tomadas, o que só agrava o sentimento de medo que a pandemia já traz.

Porém, não foi só a gestão que falhou.

Desde o início, ficou muito claro que a luta contra a COVID-19 é coletiva. Absolutamente todos precisam fazer a sua parte, para que se possa ter um resultado menos gravoso.

O vírus ainda é uma incógnita, pois ninguém sabe ao certo como ele agirá no organismo de cada um. Temos constatado que aquela primeira conclusão – de que ele poderia ser letal apenas em idosos ou em pessoas com comorbidades – já não se aplica, afinal, temos visto muitas pessoas jovens e saudáveis serem arrebatadas por essa doença.

Se uma pessoa falha, coloca em risco muitas outras.

Então, por que temos tanta gente – jovem e não tão jovem – agindo como se fosse intocável?

E não é difícil verificar isto: uma simples volta pela cidade ou mesmo uma rápida “zapeada” nas redes sociais nos confirmam que é imenso o número de pessoas aglomeradas, festejando (?), praticando exercícios sem o uso da máscara, frequentando umas as casas das outras, em bares (que ainda deveriam estar fechados, inclusive), enfim, descumprindo, de todas as maneiras possíveis, as recomendações de distanciamento e cuidados.

Então, o que fazer quando as próprias pessoas não têm qualquer noção e ação de civilidade e responsabilidade coletiva ou, para além disso, empatia com o próximo?

Através de sanções, sejam penais, cíveis ou administrativas – inclusive, a lei cearense (Lei nº 17.234 e suas alterações) que multa pessoas físicas e jurídicas pelo não uso de máscara já está em vigor-, é possível coibir certos comportamentos, mas é triste pensar que são precisos mecanismos como estes para forçar, em uma pandemia, o ser humano a ter o mínimo de responsabilidade com o próximo e consigo.

Para finalizar, questiono o seguinte: sabemos que, mais cedo ou mais tarde, a pandemia irá passar, o vírus da COVID-19 será controlado, mas quando o vírus da omissão, da negligência e da falta de amor ao próximo irá passar? Ele terá cura algum dia?

Foto: Jândreson Gomes

Maslowa Pinheiro Rodrigues
Advogada criminalista, pós-graduanda em Direito e Processo Penal

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4 Comentários
  1. Guedes disse:

    Excelente texto, ao final a culpa é do poder público, mas o povo ajuda muito em não preservar a própria vida…..Parabéns Maslowa. Abraço.

  2. Berenice Benicio disse:

    Parabéns! Matéria de cunho claro e objetiva.
    Explicações dentro das leis e de uma expressividade espetacular.
    Parabéns doutora!

  3. Houve foi politicagem em relação ao vírus.

  4. Jamille disse:

    Nunca li, um texto tão claro e verdadeiro. Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu. A negligência pública junto com a população, se resultou nisso que estamos vivendo. Parece que perdemos o medo, o pavor do desconhecido. Parece que se um dia for infectado, logo ficarei bom. E vida que segue, eu quando saio na rua com máscara, álcool e vidros do carro fechados, estou com mais medo do que as pessoas que vejo nos calçadões caminhando com mais 4 ou 5 pessoas todas paradas conversando e sem máscara. Abraços e apertos de mãos continuam sem o mínimo de precaução. Rezamos para que isso passe logo e que não sejamos os próximos nos números de óbitos.

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