As teias do poder em Choró

Itamar Filho • Colunista do Repórter Ceará
25 de setembro de 2020 às 09:40 1

“O teu nome, cidade gloriosa, vem do canto do meigo chorão, que a noitinha, ao pé do limoeiro, entoava triste canção. A dolente, toada ecoava, despertando uma forte emoção, e o povo dizia contente: o chorão já está no limão”. São com esses versos, do hino municipal, que abrimos o texto de hoje sobre as teias do poder da cidade de Choró. O que esperar entre os cenários possíveis de 2020 e o que o futuro pode reservar ao povo do pequeno município? Conversaremos sobre isso trazendo a ótica da história da cidade mais nova do Sertão Central.

Falar de política, do jogo de poder, dos enlaces e deslaces presentes em cada cidade é complicado. Complicado pois cada lugar tem suas particularidades, especificidades, história. Não seria justo comparar Choró à sua ‘cidade mãe’ Quixadá em aspectos geográficos, espaciais, econômicos, históricos ou mesmo políticos, mas há um fator em comum, que devemos levar em consideração independente de qual município nos dispomos a falar: a luta de seu povo. Seja nas individuais ou coletivas, sempre há de existir aqueles que querem o bem estar social e o pleno progresso e desenvolvimento de sua terra, mas estes nem sempre estão no lugar que deveriam ocupar para tal. Podemos não aceitar ou concordar, mas a política ainda é, hoje, a força motriz das mudanças. Acrescento a ela à educação, mas esta última, em determinadas ocasiões, se vê refém das artimanhas da primeira. No Choró, há, nas palavras de nossa colaboradora, “uma política bem conturbada”. E não, não é um feito exclusivo à referida cidade, pelo contrário, podemos dizer que é quase via de regra no Brasil contemporâneo, mas lá o cerco político se fecha em poucas famílias, entre poucos (ex?) amigos. A grande questão é se há espaço para um novo surgir na terra de São Sebastião.

Esse ano dois candidatos hegemonizam a disputa pela prefeitura da cidade. O atual prefeito, Marcondes Jucá, que tenta a reeleição, e seu opositor, o empresário conhecido como ‘Cabeça de Choró’. Entre as articulações pelo paço municipal choroense, duas figuras carismáticas entre suas militâncias e conhecidas da população. Em um histórico breve e resumido do entorno político que envolve Choró, temos famílias e ex-aliados que já ocuparam o mesmo palanque e hoje não se olham nem na rua. Marcondes tem todo o peso de seu sobrenome nas costas. A família Jucá tem raízes de poder profundas na região e um histórico de respeito entre os munícipes desde o tempo que toda a área era distrito, o que não o salva, porém, das polêmicas e percalços que envolveram sua gestão. Cabeça, por sua vez, tem elos de outrora com a prefeitura da cidade. Já prestou serviços ao município em gestões anteriores, como as do prefeito Dé, que antecederam Marcondes em 2016. Também não é recém-ingresso na política partidária eletiva, já que foi candidato a vice na chapa de Júnior Ximenes. Este, por sua vez, era apadrinhado pelos sogros, os ex-prefeitos Otácio – 1º eleito em Choró – e Iracy,
sua esposa. Não lograram êxito na disputa e perderam para o filho da tradicional família. Marcondes encabeçava sua chapa com Gláucia Rodrigues como vice, após o postulante anterior ter candidatura barrada pela justiça. Hoje, porém, Gláucia não divide do mesmo projeto do prefeito, afastou sua imagem da dele e declara apoio abertamente ao Cabeça. Quando falamos em teias, não fora mera estética linguística.

É desse emaranhado político que levantamos a questão retórica do 2º parágrafo: teria Choró uma outra via? Antagonista ou não, mas que desabrochasse a flor do ser político que está presa por uma disputa de décadas entre poucas pessoas, tal via poderia ser um novo rumo à cidade que ainda não encontrou seu lugar ao sol. Se Banabuiú desponta em seus grandes eventos culturais, Quixadá se centra nos serviços e Quixeramobim, na indústria calçadista, Choró não vê o dinheiro de seu cidadão circular com força internamente e acaba se vendo dependente dos recursos repassados por outros entes (não que a culpa seja exclusiva da cidade, creio que esta, inclusive, está no próprio pacto federativo brasileiro, mas isso é assunto para um outro artigo) por não ter ainda um caminho certo à trilhar. Que tipo de cidade quer ser, planejar, expandir e desenvolver? As atuais disputas não parecem estarem tão atentas a pontos específicos como esse. Seria sim necessário outras figuras para que o meio político daquele lugar possa se mexer – e ir para a frente, se possível. Por fim, concluo esse artigo dizendo ao povo de Choró que não perca a garra de lutar ou a esperança de sonhar; a cada dia nasce uma nova oportunidade para mudar, e respaldando o que diz o final de seu bonito hino, “Salve, cidade querida, da minha vida razão, que as graças do Deus infinito te cubra de paz e proteção.”

Este artigo foi escrito com o auxílio e as informações de nossa colaboradora e professora em Choró, Andressa Nascimento. Esta coluna tem a pretensão de ser colaborativa. Se crê que algum tema da política e dos acasos sociais são de grande relevância, entre em contato, terei o prazer de discuti-los com você e, a depender da conversa, virar assunto de nosso espaço.

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1 Comentário
  1. Francisco juca disse:

    Ótimo artigo, de uma imparcialidade ímpar.

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