‘Professorar’ rima com ‘amar’

Itamar Filho • Colunista do Repórter Ceará
15 de outubro de 2020 às 11:36 0

Além de rimar, aliás, deveria ser um sinônimo também, principalmente em um país como o nosso, cujo papel do docente e sua valorização são quase que completos opostos: enquanto o primeiro o eleva a uma importância colossal dentro da construção de nossa sociedade, o segundo reflete a precarização estrutural e institucional de nossa educação por uma de sua principais figuras representativas, a professora e o professor.

No dia 15 de outubro comemora-se o ‘Dia do Professor’. Surgido da ideia de professores paulistas na década de 1940, baseados na data em que Dom Pedro I – primeiro Imperador do Brasil – instituiu decreto que estabeleceu o Ensino Elementar no Brasil, em 1827, com a difusão de escolas de letramento nas cidades do então império, a data é marcada por homenagens, reflexões, vídeos, agradecimentos e belos textos, tal qual outras datas especiais no Brasil, como o Dia Internacional da Mulher, 8 de março; o Dia do ‘Índio’, 19 de abril; e o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Assim como as demais, as homenagens e os louros são dados apenas em seu respectivo dia. No restante do ano, o cenário muda.

Para quem não sabe, sou estudante de Licenciatura em História, pela FECLESC, o que significa dizer que, quando terminado meu curso, estarei apto para dar aulas no ensino básico, desde o Fundamental II até o Médio, na disciplina de História – baseando na realidade de nosso ensino, devo me preparar para todas as disciplinas de Ciências Humanas, já que muitas escolas e governos não respeitam a necessidade da formação e acham que o professor formado em um curso pode dar aulas integralmente para toda sua área. Posso dizer com propriedade que a formação docente do ensino superior público no Brasil, apesar de suas especificidades, é uma das melhores no mundo em relação a carga teórica, de pesquisa e de nossos professores. A FECLESC tem um quadro de cerca de 70% de professores doutores e pós-doutores; o restante, são mestres ou especialistas. O vestibular da UECE não é fácil, tampouco sua seleção de quadros docentes. Ser professor, ao menos no Ceará, exige esforço e dedicação. Mas, se é tão difícil assim, até para ingressar nessa profissão, por qual motivo há um descrédito quando “chegamos lá”, dentro de sala, no sistema de ensino?

Quando criticamos de desvalorização do magistério, muitas pensam que falamos em salário. Sim, ele também faz parte, mas está longe de ser o protagonista da situação. A desvalorização do professor vai da falta de giz em sala de aula a falas do Ministro da Educação, como a mais recente “[…] Hoje, ser um professor é ter quase uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”, ou do Presidente da República, quando reproduz que ‘professores devem ser vigiados em sala’, pondo em xeque a liberdade de Cátedra assegurada pela Constituição – isso sem citar as calúnias e ofensas pulhas feitas por integrantes do governo Federal à figura de Paulo Freire quase diariamente. Todos esses fatores se ligam diretamente a estrutura de sociedade que o Brasil construiu. Um país que credita a seus professores um papel coadjuvante e, por vezes, de antagonista, está sistematicamente corrompido e, mais grave, doente. O professor é alguém que incomoda, pois ele pode revirar, da base, da infância, essa estrutura putrefata.

Por incomodar aqueles que não querem perder seus pedestais e buscam constantemente perpetuar seu modo de viver, é que o docente brasileiro torna-se subjugado por uma massa poderosa, composta por vocês sabem quem. Descreditar, desacreditar, desvalorizar. Não é coincidência ou comum, é construção; uma construção antiga, tão quanto a gente chama essa terra de ‘país’. A identidade brasileira foi moldada por pessoas de fora, e essas não têm interesse nenhum em valorizar nossos professores. Não à toa são todas e todos guerreiros, que lutam incessantemente por seus direitos, suas mínimas garantias. Não, ministro, quem é professor hoje no Brasil não o faz por não ter outra alternativa, mas sim por amor. Amor aos alunos, as cidades, estados, a seu país, a educação! Diferente do senhor, que depende da boa vontade de um alguém eleito por uma vontade momentânea do povo, e tal qual são passageiros, o professor vai continuar, se perpetuar, seja por seu trabalho, legado, seja pelas ideias que ajudou a plantar, regar e criar com seus alunos, pois como ressalta Freire, “Não há docência sem discência” e a mesma só é resultante por meio da ‘Transposição’ na perspectiva francesa do ‘Transformar o conteúdo’, coisa que só um professor pode fazer.

Alunos, valorizem seu professor. Aquela que você chama de ‘tia’, aquele que tenta de tudo pra fazer você prestar atenção na aula; pais, entendam também seu papel do processo de ensino-aprendizagem e respeitem a figura do educador. À todas e todos, esse ano teremos eleições municipais, então deem nas urnas a resposta de que país vocês querem para seus filhos: um que o docente e a educação sejam valorizados como devem ou uma pátria pária, marginal, como a que nos encaminhamos para ser. E finalizo aqui com uma passagem de Paulo Freire, em sua obra ‘Pedagogia da Autonomia’, deixando o convite para aqueles que criticam, mas nunca leram uma linha de nosso educador, verem de perto seu trabalho. “O desrespeito à educação, aos educandos, aos educadores e às educadoras corrói ou deteriora em nós, de um lado, a sensibilidade ou a abertura ao bem querer da própria prática educativa de outro, a alegria necessária ao que-fazer docente. É digna de nota a capacidade que tem a experiência pedagógica para despertar, estimular e desenvolver em nós o gosto de querer bem e o gosto da alegria sem a qual a prática educativa perde o sentido.  É esta força misteriosa, às vezes chamada vocação, que explica a quase devoção com que a grande maioria do magistério nele permanece, apesar da imoralidade dos salários. E não apenas permanece, mas cumpre, como pode, seu dever.

Amorosamente, acrescento.”

Este trabalho é dedicado a todas e todos os docentes que amam o que fazem e que almejam mudar o mundo. Saibam que talvez não consigam muda-lo por completo, mas cada criança que vocês conseguirem, será um mundo novo criado. Esta coluna tem a pretensão de ser colaborativa. Se crê que algum tema da política e dos acasos sociais são de grande relevância, entre em contato, terei o prazer de discuti-los com você e, a depender da conversa, virar assunto de nosso espaço.

Foto: Getty Images

Confira mais artigos na coluna de Itamar Filho clicando AQUI.

Compartilhar...
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter
Deixe uma Resposta

Enquete

Considerando o cenário de pandemia na sua cidade, você se sente seguro em sair para votar no dia 15 de novembro?

View Results

Loading ... Loading ...
Anúncio
Mídia Kit

Anuncie no Repórter Ceará

Baixe o Mídia Kit


Contato: jornalismo@sistemamaior.com.br

Entendendo A Notícia
Curta nossa página
Escute ao vivo
SerTão TV
Visite-nos
Tempo