As lições que 2020 ensinou

Itamar Filho • Colunista do Repórter Ceará
31 de dezembro de 2020 às 10:35

Sempre que é chegado o Natal, junto se anuncia o fim de ano, e com esse anúncio, as expectativas de um novo tempo que há de se iniciar com o próximo 1º de janeiro. Como uma chave que gira e destranca uma porta, teimamos em imaginar que a virada da meia-noite do dia 31 irá reverter ou, no mínimo, mudar tudo o que um ano foi. Ledo engano ou bonita esperança?

Durante toda minha vida fui do time da bonita esperança. É mais ameno pensar que a mudança no calendário funcione como uma chave, apesar de nem sempre refletir a realidade do que se espera. Para muitos, 2019 havia sido um ano para se esquecer e, por isso, 2020 era aguardado como a chance de começar de novo. Ao fim desse ano, porém, me pergunto, dentro da métrica imposta entre as extremidades ‘bom’ e ‘ruim’, a qual devemos encaixa-lo. Passar quase 10 meses em casa (o “sonhado” ‘emendar carnaval com natal’) fora ruim? Se olharmos o motivo, veremos a escuridão do luto. Era inimaginável há um ano que fossemos enfrentar uma das maiores crises humanitárias, sociais, econômicas e sanitárias da atualidade, propagada com extrema velocidade, em questão de semanas. Enfrentamos. Era inimaginável também -talvez possível só entre os mais otimistas cientistas- desenvolver vacinas e medicamentos pra uma doença letal e, relativamente nova, diferente das demais, em menos de um ano. Conseguimos. Esse foi o poder da humanidade. Diria mais, foi nossa queda de braço mais ferrenha desde os conflitos armados e psicológicos do passado século XX.

Sim, fora uma queda de braços, uma aposta no mais forte, uma corrida, disputa, partida, seja lá como quiser chamar. Foi e é. 2020 foi nosso marco zero de um tempo diferente. Velhos antagônicos se uniram e bons colegas se dividiram em trincheiras diferentes. Religião e Ciência, que por tantas vezes estiveram em lados opostos, se abraçaram no pedido do cuidado e na oração pelos profissionais da saúde. O Papa conclamou a vacinação para todos, e a OMS, que tivéssemos esperança. A Política se partiu, entre quem a faz com ‘P’ maiúsculo e quem é reles politiqueiro; entre os líderes que acreditaram em quem estuda e aqueles, cuja ignorância não permitiu enxergar além de seu próprio umbigo. Triste fim para o povo que elegeu estes últimos. Mais uma queda de braço? Até quando vamos ter de aturar o racismo estrutural? Quantos Floyds, quantas crianças, avôs, quantas mães de família pretas vão precisar ficarem sem ar? Ou levarem “tiros de advertência” ou de bala perdida? O recado que começou a vim das ruas e desaguou nas urnas foi ímpar; resta-nos continuar essa luta. O racismo foi moldado e construído por elites durante séculos, e só vai acabar mais rápido que isso com uma resposta mais voraz. Voracidade essa que só tem legitimidade se vier do povo, como a resposta aos negligentes, negacionistas, machistas e homofóbicos há de vir.

Como dizia o velho poeta, “eles passarão, eu [nós] passarinho”. 2020 e a catatônica derrota do péssimo perdedor Donald Trump nos Estados Unidos provaram isso. Não há mal que dure pra sempre, assim como a felicidade só é plena quando construída por [e para] todos. Não espero mais um 2021 novo, cujos problemas se resolverão como mágica. Não acredito mais na bendita chave ou uma passageira queima de fogos como símbolo da mudança mor, mas continuo crendo na humanidade e seu poder de transformação, e na esperança que repousa em cada um de nós. Esperança essa que tem o potencial de transformar cada nova manhã em um tempo diferente, sem a necessidade de esperar outros 365 dias para mudar. A capacidade de mulher, do idoso, da criança pode ser, por vezes, ofuscada pela petulância dos ignorantes -que insistem em querer atenção- mas jamais será menor que a própria vontade do ser. A maior lição que esse ano me deu é que ele foi um como qualquer outro, dividido em um calendário, um dispositivo para pensar a passagem do tempo, mas esse último, o tempo sim, foi diferente. Não bom ou ruim, mas singular como qualquer um de nós é. E é dessa singularidade que prefiro ser ‘pé no chão’ e convido você a ser também. O ano que nos espera vai necessitar da luta, tanto para enfrentar o luto quanto para mostrar aqueles que lavaram as mãos que ‘um novo tempo’, como na canção, só é possível vindo da gente. Feliz ano novo, boas festas e coragem.

Essa coluna tem a pretensão de ser colaborativa. Se crê que algum tema da política e dos acasos sociais são de grande relevância, entre em contato, terei o prazer de discuti-los com você e, a depender da conversa, virar assunto de nosso espaço.

(Foto: Divulgação/Dinheirama)

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