2020: vitória ou derrota bolsonarista?

Itamar Filho • Colunista do Repórter Ceará
15 de fevereiro de 2021 às 11:57

No início do segundo semestre de 2020, nosso espaço nascia no Repórter Ceará com dois textos refletindo a respeito dos vindouros resultados das eleições gerais que aconteceriam naquele ano: nos Estados Unidos, cuja política é sentida no mundo e em países aliados, como o nosso; e também aqui, com os sufrágios municipais. Em ambas reflexões, imaginamos como os resultados eleitorais se abateriam sobre nosso presidente e sua corrente político-ideológica, mas agora, passados quase três meses desde o fim das campanhas, com os eleitos já tendo assumido seus cargos e com a frieza da análise política voltando aos eixos, podemos -tentar- entender se o bolsonarismo saiu mais fraco ou não de 2020.

Politicamente, o presidente Jair Bolsonaro saiu ‘cambaleado’ com os resultados das eleições brasileiras e norte-americanas. Na internet, ganhou a alcunha de ‘dedo podre’ por não conseguir eleger seus correligionários. Primeiro, no caso internacional. Bolsonaro tinha -tem- uma admiração indiscutível pelo ex-presidente estadunidense, Donald Trump. As razões podem ser as mais diversas, desde as escolhas semelhantes na política e ideologia, até a gostos pessoais ou “admiração patriótica” pela nação ianque -sim, Trump é norte-americano e Bolsonaro tem um ‘q’ de subserviência aos Estados Unidos. Essa relação, que se fosse conjugal sem dúvidas seria abusiva, era evidente pelo tratamento que Bolsonaro e seu governo davam à Trump, desde a forma de menosprezar estratégicos aliados brasileiros em favor da pátria do norte, até mesmo as concessões econômicas e soberania nacional -como a Base de Alcântara, no Maranhão, cedida aos EUA, e a suspensão da necessidade de Visto de cidadãos estadunidenses. Bolsonaro elevou a velha teoria do ‘vira-latismo’ a um nível inédito e entregou o Brasil a boa vontade do “laranjão”, digo, de Trump. E como não deixaria de ser, apoiou incondicionalmente a reeleição deste, insuflando inclusive seus apoiadores no Brasil. Felizmente os norte-americanos enxergaram um palmo a sua frente e perceberam o desastre que era sua pátria governada pelo republicano. Em uma eleição histórica, o principal aliado de Bolsonaro perde de forma vergonhosa -questionando o resultado da eleição, como um certo tucano mineiro fez, movendo ações judiciais sem base legal e, em uma última tentativa desesperada, instigando seus eleitores a tomarem o poder a força, em uma tentativa absurda de golpe na invasão ao Capitólio, uma das cenas mais tristes da democracia ianque. Bolsonaro, que também questionou o resultado eleitoral, teve de dar o braço a torcer e parabenizar o eleito: o democrata Joe Biden. O resultado de tanta subordinação e de acordos obscuros começa a ser aberto com a caixa de pandora e Biden, que já não tinha bons olhares sobre o presidente brasileiro, sua forma de conduzir nossa política e Estado, recebeu recentemente de um grupo de pesquisadores e personas influentes de seu governo, um extenso relatório pedindo imediata suspensão de acordados com o governo brasileiro e recomendando, inclusive, sanções a nosso país pelo desastre ambiental na Amazônia. A “boiada” de Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente vão custar caro.

Voltando a terra tupiniquim, os resultados eleitorais também não sorriram tanto para o capitão. Se direita e esquerda se engalfinhavam pelo discurso e mando das prefeituras, quem realmente as “ganhou” foi o famoso ‘centro’ -que no Brasil não passa de uma direita a moda da casa, suave como vinho. Um lado que não tem lado, a não ser dos interesses econômicos de uma minoria já favorecida, e isso não é novidade para ninguém. Bolsonaro e seus candidatos perderam em dezenas de cidades país a fora, como em Fortaleza -mais uma e o capitão pede música no Fantástico. Mas a derrota mais acachapante foi do garoto -não tão garoto assim- propaganda do presidente, o ex-prefeito do Rio de Janeiro e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record, Marcelo Civella, que além de humilhado nas urnas contra Eduardo Paes, terminou o mandato com uma belíssima tornozeleira eletrônica após ir para a prisão em dezembro.

O centro fisiológico não tem simpatia pela esquerda, mas não se envolve propriamente com os mandos e desejos desvairados do presidente, justamente por esses ameaçarem seus status quo, logo, para a grande mídia tradicional, no pós-eleição, o verbo rasgado foi que “o Brasil fugiu dos extremos” e apontava para uma saída mais comedida, tradicional, quase um meio termo, entre os opostos que criaram do bolsonarismo e ‘lulopetismo’ -como se esses fossem faces da mesma moeda, o que não são. Essa realmente era uma reflexão aceitável e palatável as grandes famílias do setor da imprensa – os Marinhos, Saads, Frias e Mesquitas da vida. Essas famílias, abertamente apoiadoras de determinados projetos políticos, nunca se curaram dos calos de 2018, quando seus candidatos -tucanos e ‘Novos’, perderam espaço no segundo turno para Bolsonaro, o deputado extremista, e Haddad, o petista “cria” de Lula. Mas há um problema nessa equação; esse centro é, como dizem as línguas da internet, semelhante a um celular pré-pago: funciona para quem coloca créditos. Bolsonaro entendeu isso e fez uma recarga voluptuosa. Praticamente vendeu a alma para que seus aliados ganhassem as eleições internas do congresso: Rodrigo Pacheco, do Democratas, levou o Senado, e Arthur Lira, do PP, a Câmara. Porém, o capitão ainda não está em uma situação agradável. Sem ter apoio popular -apenas 26% de aprovação- ele agora está muito mais nas mãos dos deputados do centrão que o contrário. A língua foi o chicote do corpo daquele que passou a campanha de 2018 dizendo que não governaria com conchavos e acordos.

Em meio a um desastre econômico, social, político e sanitário, o Brasil segue. Para frente ou para trás? não sabemos, mas não deixa de seguir. Segue indo, mesmo com a perda de mais de 230 mil irmãos. Segue, vai, e o pior? Sem nenhum rumo. Se o bolsonarismo e seu representante mor ganharam ou perderam em 2020, deixo a você, leitor, que reflita e tire suas conclusões, mas se há alguém ou algo que perdeu de verdade no ano passado, sem dúvidas foi o Brasil e nós, brasileiros. Sejas mais ‘mãe gentil’ com os filhos deste solo, ó idolatrada pátria amada.

Boa segunda, uma ótima semana e bom trabalho, classe trabalhadora.

Esta coluna tem a pretensão de ser colaborativa. Se crê que algum tema da política e dos acasos sociais são de grande relevância, entre em contato, terei o prazer de discuti-los com você e, a depender da conversa, virar assunto de nosso espaço.

Foto: Ludovic Marin/AFP

Para conferir mais artigos na coluna de Itamar Filho, clique AQUI.

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