Ele cantava o amor: Raul Sampaio (1928 – 2022)

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
13 de fevereiro de 2022 às 11:18

As canções de Raul Sampaio fluíram de sua sensibilidade melódica e verve poética com a qual se referia aos sentimentos, especialmente o amor e a saudade – saudade que ele nos deixou embalada por lembranças: “lembra um olhar, lembra um Lugar, teu vulto amado…”. O vulto franzino, o sorriso cativante desse capixaba que presenteou sua terra natal com um belo hino não serão esquecidos. “Eu passo a vida recordado de tudo que deixei aí… Mas te confesso na saudade as dores que arranjei pra mim/Pois todo pranto destas mágoas ainda irei juntar nas águas do teu Itaperim… Ai que saudades dessas terras entre as serras, doce terra onde eu nasci…”. A gravação inicial foi do próprio Raul, em 1963, sendo oficializado como hino da cidade em 28/07/1966. Depois se torna grande sucesso na voz de outro cochoeirense ilustre – Roberto Carlos Braga.

Os desencontros amorosos foram tema em Revolta: “O desespero me tirou a consciência e no delírio que me envolve esta paixão/Eu vou tramando no meu cérebro nervoso uma maneira de magoar teu coração”. Versos cantados por Nelson Gonçalves; Nono Mandamento gravado por Cauby Peixoto; Anísio Silva grava Estou Pensando em Ti, enquanto Orlando Dias dá voz a Quem Eu Quero Não Me Quer. Raul teve como intérpretes femininas nomes como Núbia Lafayette, Leni Caldeira e Maysa. Confidência na voz de Ângela Maria é dito “volta aos meus braços porque a dor dessa saudade me alucina/Eu quero a paz do teu amor evita, por favor, minha ruína”.

O cancioneiro produzido por Raul Sampaio fomentava boas serestas a exemplo de Amor em Serenata, sucesso de Carlos Nobre: “Desce o luar por sobre o mar, por sobre a rua/A Lua cheia rasga o céu com seu clarão/Quero que saibas meu amor, nem vejo a Lua/Porque teus olhos são a minha obsessão…”. Destaco Tempos de Seresta como a mais poética de suas letras:

“Venho das canções em serenata dos luares cor de prata dos poetas ancestrais/ Onde aquele Rio de Janeiro dos balcões aos candeeiros que ninguém se lembra mais… Muda o canto a forma o verso a prosa mas a rosa é sempre a rosa sempre o mesmo este luar…”

Sobre saudade, ele escreveu “ai saudade que molha os olhos da gente/Saudade é uma coisa a toa a toa pra quem não sente…”. E copiando uma de suas letras, aquela que Erasmo Carlos gravou, me dirijo a esse ídolo com essa carta: “Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor/Porque veio a saudade visitar meu coração/Espero que desculpes os meus erros por favor/Nas frases desta carta que é uma prova de afeição…”.

Neste texto simples, traduzo minha admiração pelo integrante da Academia de Letras de Cachoeiro de Itapemirim que enveredou pela música ao perceber que a poesia não assegurava os meios de sobrevivência material. Ao mudar-se para o Rio de Janeiro, trabalhou em loja de instrumentos musicais, continuou compondo e integrou o Trio de Ouro, com Herivelto Martins e Lourdinha Bittencourt. O grande Ary Barroso reconheceu avanços na forma de compor do Raul ao ouvir Solução. Conheci suas canções através da Voz de Cristal e emissoras de rádio que destacavam apenas os intérpretes. Atualmente ao conduzir um programa na Rádio Campo Maior, faço questão de nomear os compositores, pois merecem nosso reconhecimento.

Ainda bem que vídeos e discos nos permitem atenuar a saudade que agora é nossa. Foi noticiado que ele deixou obras inéditas e que os filhos pretendem divulgar. Tomara que aconteça.

Foto: PCI/Secom

Confira mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira AQUI.

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