Águas de Março: devoção/saber popular x ciência

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
19 de março de 2022 às 10:12

A Meteorologia explica as mudanças no tempo das várias regiões do Planeta Terra, as quais decorrem do “Movimento de Translação”, responsável pela mudança nos raios solares que atingem a Terra, resultando nas quatro Estações do ano com características distintas: outono, inverno, primavera e verão. Estas ocorrem em períodos inversos nos dois Hemisférios – Norte e Sul. Quando começa o verão no Hemisfério Sul, o Hemisfério Norte está a se cobrir pela neve do inverno. Situado no hemisfério sul, o Brasil tem o verão iniciado entre 20 e 22 de dezembro indo até março, quando começa o outono, que se estende até 20 ou 22 de junho. De junho a setembro ocorre o inverno que vai até setembro, sendo sucedido pela primavera.

A proximidade com a Linha do Equador interfere fortemente na inclinação dos raios solares, fato que reduz a ocorrência de algumas características das referidas estações. O Estado do Ceará se inclui nessa feição. Popularmente se diz que temos apenas duas: o tempo de chuvas (muito curto) e o tempo do “calorão”, e as chuvas banham o Nordeste em parte do verão e aumentam no outono. No Sudeste, as águas são intensas durante o verão, daí o grande Tom Jobim compôs a letra que diz: “São as Águas de Março fechando o verão.”

Apesar da explicação científica comprovando que o outono tem início com o fenômeno do Equinócio que ocorre entre 20 e 22 de março, provocando a incidência de chuvas, o sertanejo atribui a São José aquelas águas abençoadas, pois novenas e procissões são realizadas em louvor ao santo, comemorado em 19 de março, dia decisivo para as observações sobre as condições que viverão nos meses seguintes quanto ao plantio e colheita, ou estiagem, pois a gente simples que trabalha na lavoura é guiada pelo conhecimento de seu cotidiano.

O dia de São José tem grande simbolismo para o sertanejo pois traz a esperança de boas chuvas e fartura. Os cientistas leem as condições atmosféricas, temperatura da superfície dos oceanos, condições dos ventos etc. “O homem do campo observa o céu, as estrelas, os animais e a vegetação. Chovendo, ele saberá que a plantação vai render bons frutos, colhidos em junho, época de reverenciar outros santos como Antônio, João e Pedro, que são ligados à fertilidade: casamento, colheita e águas.”

Os Profetas da Chuva também reforçam essa relação e muitos artistas usam o tema em suas obras, como fez Patativa do Assaré: “Sem chuva na terra descamba janêro. Depois, feverêro. E o mêrmo verão. Entonce o rocêro, pensando consigo,
diz: isso é castigo! Não chove mais não! Apela pra maço, que é o mês preferido do Santo querido, Senhô São José.” (A Triste Partida)

Neste sábado, 19 de março, o Ceará festeja seu Padroeiro e outras regiões nordestinas estão observando o céu com fervor naquele Santo que tem tantos devotos neste Nordeste carente de chuvas.

Foto: JL Rosa

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