“Caminhando e cantando e seguindo a canção”: um canto de revolta pelos ares

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
2 de abril de 2022 às 10:47

O ano era 1964. Findava Março e amanhecia Abril fechando muitas oportunidades que adviriam das reformas de base idealizadas pelo Governo de João Goulart, principalmente a Reforma Agrária. O “Tio Sam” tecia suas redes através das quais manobrava os novos mandatários da nação. Os militares assumiram o poder com apoio da burguesia que defendia seus privilégios e religiosos descompromissados com a justiça social implícita no Evangelho ensinado por Jesus Cristo. Assim tem início em 31 de março/1º de abril de 1964 o período marcado por restrições aos cidadãos e cidadãs em suas formas de expressão política e cultural. Governadores e parlamentares contrários ao regime vigente foram cassados e alguns aprisionados; os meios de comunicação eram controlados, assim como as expressões artísticas: peças teatrais, livros e canções sofriam censura prévia pelos representantes do novo governo.

A dura repressão não anulou a veia literária brasileira. Muitos foram perseguidos e expulsos do país, mas o cancioneiro da MPB reúne muitas composições que se tornaram hinos dos protestos nos ginásios e nas ruas. A primeira e mais simbólica é a criação de Geraldo Vandré, “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, apresentada no Festival Internacional da Canção de 1968. Aponta a desigualdade: “Pelos campos há fome em grandes plantações”. Chama para mudar: “Quem sabe faz a hora não espera acontecer”. Vandré negava que a letra era de protesto; saiu do país voltando em 1973.

Ainda em 1968, ao encenar a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, dirigida por Zé Celso Martinez, o elenco é agredido, o cenário e figurino destruídos por grupo reacionário de direita. Chico vai para a Itália onde reside por dois anos. 1970 é o ano que ele dá o recado sem rodeios, na letra de “Apesar de Você”:

“A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu/Você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a desilusão /Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão.”

Em 1973 Chico e Gilberto Gil compõe “Cálice”: “Como beber dessa bebida amarga/Tragar a dor, engolir a labuta/Mesmo calada a boca, resta o peito/Silêncio na cidade não se escuta/De que me vale ser filho da santa/Melhor seria ser filho da outra/Outra realidade menos morta Tanta mentira, tanta força bruta…”. A liberação demorou mais de dois anos. Canções e peças teatrais de Chico Buarque eram alvo de forte censura levando o profícuo autor a recorrer ao pseudônimo de Julinho da Adelaide e ter aprovadas letras como “Jorge Maravilha”: “Mais vale uma filha na mão do que dois pais voando/Você não gosta de mim mas sua filha gosta”, referindo-se a não aceitação da Ditadura pela nova geração. “Acorda Amor”, “Milagre Brasileiro” e outras foram lançadas em 1974 no LP “Sinal Fechado”, título de uma canção de Paulinho da Viola.

Taiguara, um dos artistas mais perseguido pelos censores, teve 68 composições vetadas e a liberação ocorre apenas em 1982. Gonzaguinha retratou aquele período em canções como “Comportamento Geral”: “Você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado/Você deve lutar pela xepa da feira e dizer que está recompensado/Você deve estampar sempre um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado/Você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado…”. Mas ele deu o recado mais direto na canção de menor título – “É”: “A gente quer viver pleno direito/A gente quer viver todo respeito/A gente quer viver uma nação/A gente quer é ser um cidadão…”. A genialidade de Gonzaguinha ultrapassou o tempo e ainda cabe nos contexto atual.

Em “Pesadelo”, a letra de Paulo César Pinheiro prenuncia mudança: “E se a força é tua ela um dia é nossa/Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando/Que medo você tem de nós, olha aí/Você corta um verso, eu escrevo outro/Você me prende vivo, eu escapo morto”. Por coincidência, “Tô Voltando”, outra canção de Maurício Tapajós com P. C. Pinheiro, cuja motivação era a saudade de casa durante uma temporada de shows pelo País, se torna o hino do retorno dos exilados.

Em versos e prosa a ditadura era contestada. Ao entoar as canções, o povo demonstrava sua indignação. Envoltas em lirismo, metáforas formaram o que viria a ser o Hino da Anistia – “O Bêbado e a Equilibrista”, letra de Aldir Blanc musicada por João Bosco, em que pede a volta de exilados, fala do choro de viúvas e esperanças.

“O bêbado com chapéu-coco fazia irreverências mil pra noite do Brasil/Meu Brasil! que sonha com a volta do irmão do Henfil com tanta gente que partiu num rabo de foguete/Chora a nossa Pátria mãe gentil/Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil.”

Foram anos difíceis. Havia perseguições aos que lutavam esclarecendo e mobilizando o povo pela retomada da democracia. Além dos artistas nomeados neste artigo, muitos contribuíram para a retomada da liberdade de expressão, pelo exercício pleno dos direitos civis. Foi longa e difícil cruzada pela garantia dos direitos constitucionais. É um tempo que NÃO pode ser esquecido para que NÃO venha a se repetir.

Foto: Governo Federal

Para conferir mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira, clique AQUI.

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