Serenata e seresteiros: as canções em noites de luar

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
9 de abril de 2022 às 11:22

“Abre a janela formosa mulher”, vem ouvir o teu cantor que recorre ao cancioneiro para falar de amor acompanhado de grupo tocando violões e outros instrumentos. Receber uma serenata era prazer e emoção, pois reafirmava afeto entre enamorados, além do deleite com um belo repertório. Esse costume se perdeu nas grandes cidades e as novas gerações não desfrutam desse momento de romantismo e musicalidade. A França  tinha os madrigais no interior de palacetes. Na Idade Média, a Europa vê surgir os trovadores, que ao unir música e poesia criavam canções e as anotavam em livros intitulados “Cancioneiros”. Assim podemos afirmar que os trovadores foram os precursores das serestas que chegaram ao Brasil no século XVIII.

A serenata é uma homenagem surpresa, quase sempre é dirigida à donzela amada. Os seresteiros cantam músicas leves de teor romântico nas calçadas, sob a janela da pessoa reverenciada. A moradia em edifícios altos impossibilita essa prática tão comum em décadas antigas. Adelino Moreira, compositor que produziu canções para grandes seresteiros, como Nelson Gonçalves e Carlos Nobre, escreveu em “Silêncio da Seresta”:

     “Vai longe o tempo em que se a noite era de prata
Violões em serenata tingiam o céu de amor
      E a morena da janela ou do balcão
Se gostava da canção sorria ao Trovador
      Hoje a morena vive em Copacabana
E todo bairro engalana lá de um décimo andar
      Vai quando é noite à boate ou ao cinema
E não se lembra, que pena da existência do luar
      Antigamente, à luz fosca do lampião
Uma trova, uma canção era o quanto bastava …”

Quixeramobim viveu o bom tempo das serenatas até o início dos anos 70, e entre seus seresteiros foram destaques o grande violonista Dico Alexandre e seu amigo José Artur Costa. Os dois amigos formaram o grupo “Coroas da Saudade”. Após a enfermidade do parceiro, Zé Artur contou com Antônio Alexandre, e por iniciativa de Liduina Leite, Neodêmia Costa, Aurélia Pimentel e os antigos participantes do “Coroas da Saudade”, deram início ao projeto “RESGATANDO A BOEMIDADE”, que até hoje espalha música de cunho romântico em noites de sábado.

Em algumas cidades do Sudeste, a população promove serestas em praças e ruas; caso de Diamantina (MG) e Conservatória (distrito de Valença/RJ). Nessa última, a seresta move o turismo e cada vez mais surgem projetos fortalecendo esse traço cultural. Museus e formação de grupos de seresteiros entre os adolescentes prometem a perpetuação dessa bela prática.

Muitos foram os seresteiros que nos legaram um rico cancioneiro, mas era preciso páginas de um livro para falar em todos. O capixaba Raul Sampaio é autor de algumas canções como “Amor em Serenata”, onde ele diz:

   “Desce o luar por sobre o mar, por sobre a rua,
    A lua cheia rasga o céu com seu clarão …”

É também de Raul Sampaio “Tempo de Serestas”:

  “Venho das canções em serenata dos luares cor de prata
   Dos poetas ancestrais onde aquele Rio de Janeiro
   Do balcão do candeeiro que ninguém se lembra mais
   Venho das canções em noite bela a cantar sob a janela
          …………………………..
   Ouçam-me modernos trovadores
   Que o cantar dos precursores não é mais o canto seu
   Sonho amor canção poema aurora
   Tudo é pranto para quem chora na seresta choro eu
   Muda o canto a forma o verso a prosa
   Mas a rosa é sempre a rosa sempre o mesmo este luar …”

O seresteiro José Augusto sergipano gravou uma das mais significativas letras sobre esse tema, mas não consegui confirmar se ele é o autor de “A Grande Serenata”:

    “Eu sou o último cantor de Serenatas
     Entre os poetas sou chamado Menestrel
     Eu canto em trovas para a lua cor de prata
    E encontro as rimas nas estrelas lá do céu
    Nas minhas rimas canto sonhos de donzelas
       ………………..
   Gosto de cantar na madrugada
   Gosto que me chamem Trovador ……..”

A motivação para escrever esse texto vem das recordações de “uma Cidade pequenina”, em um tempo que eu era feliz e não sabia que passaria tão rápido. Então me deixem recordar. Gilberto Gil em Lunik 9 tentou nos avisar:

  “Poetas, seresteiros, namorados, correio
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar…”

Foto: Pintura “O Violeiro” – Almeida Júnior

Confira mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira AQUI.

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