A cidade de dois Antônios: de uma fazenda e seus vaqueiros

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
12 de junho de 2022 às 12:45 1

A letra do Hino de Quixeramobim afirma “da Fazenda surgiu a cidade”, e a história conta que o proprietário da Fazenda – o português Antônio Dias Ferreira, devoto de Santo Antônio, adquiriu vasta extensão de terras, instala uma fazenda e a denomina de Fazenda Santo Antônio do Boqueirão. O Brasil vivia o ciclo do gado e o criatório bovino se espalhava no Sertão. O personagem central desse momento é sem dúvida o vaqueiro. No Boqueirão chega o gado e nasce uma povoação em torno da capelinha dedicada a Santo Antônio. Foram os boiadeiros os povoadores do Sertão onde vivemos, onde muitos nasceram e foram batizados na Fé e devoção ao Padroeiro da Vila Nova de Campo Maior de Quixeramobim, nossa atual cidade. As riquezas produzidas neste pedaço do Brasil foram molhadas pelo suor de homens campeadores dos animais no pasto e “cuidadores” nos currais. Algumas vezes sob o brilho da lua e quase sempre enfrentando o abrasador calor do sol. E ainda hoje a nossa Região tem na Pecuária a expressividade de sua economia, sendo a maior Bacia Leiteira e grande produtora de queijo e outros derivados.

Ao discorrermos sobre o caudal da cultura sertaneja o foco se volta para os símbolos do Ciclo do Gado – artefatos em couro como o gibão, as alpercatas e o chapéu de couro que Luiz Gonzaga mostrou ao mundo, além das selas, perneiras, chicotes, alforjes, esteiras, mobiliário e tantos outros utensílios que os tangedores da boiada usavam. As toadas e o aboio embalam doces lembranças da vida pastoril dos valorosos desbravadores da planície sertaneja. Um expoente da literatura cearense – o jornalista Jáder de Carvalho assim inicia o seu poema “Em Louvor a Quixeramobim”

“Não quero gravata. Não me tragam o relógio de pulso.
Quero o gibão, quero as perneiras. Quero o chapéu de couro. Quem vai a Quixeramobim não é o professor, o bacharel, o jornalista
Quem vai é o neto de vaqueiro, o menino que não esqueceu o pátio das fazendas.
Quem vai é o rapaz que, longe do mato, longe do Banabuiú, punha o ouvido na areia da capital e ouvia (ah, como ele ouvia!) o tropel de certo poldro “Andorinha,” o mugido da vaca “Esperança”

Se a ocupação do Sertão Nordestino resultou da entrada dos tangedores de gado, em Quixeramobim eles chegaram com as boiadas e também com a devoção ao Padroeiro da Capela da Fazenda. Além do fator produtivo, eles difundiram a devoção a Santo Antônio. Reconhecendo a decisiva participação dos vaqueiros em nossas origens, quando chefiei a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo nossa equipe promoveu na abertura dos festejos ao Padroeiro de 2005, o desfile com os vaqueiros desta Paróquia de Santo Antônio. Foi um evento pleno do simbolismo, além de homenagear os bravos boiadeiros. Para o sucesso desse momento foi fundamental o engajamento da Associação dos Cavaleiros de Quixeramobim/ASCAQUI com a mobilização dos participantes oriundos de todos os Distritos. Esse grupo existe desde 2001. A Missa do Vaqueiro faz parte do seu calendário de eventos. A ASCAQUI obteve o reconhecimento da Cavalgada como Patrimônio Cultural pela Câmara Municipal, entretanto, setores da Paróquia não assimilam esse significado. Nos anos seguintes o desfile não mais ocorreu na abertura da Festa. Em 2006, graças ao apoio da Irmã Tereza Cristina foi realizada a esperada Missa do Vaqueiro, sendo celebrante o Padre Gerfeson Carneiro, defensor das causas socioculturais e com muita boa vontade se deslocava da cidade de Tamboril para conduzir a importante Missa, por três anos consecutivos. Depois outros padres deram continuidade até que foi abolida da programação religiosa. O desfile continua, mas não voltou a ser a abertura e ao final acontece apenas uma rápida celebração. Os sacerdotes e muitos paroquianos desconhecem o papel histórico dos vaqueiros, mas Santo Antônio tem muitos devotos entre os Homens e Mulheres que lidam com o gado em nosso Sertão.

Fotos: Arquivo/Terezinha Oliveira

Confira mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira AQUI.

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1 Comentário
  1. Tarcísio de Almeida Pimrntel disse:

    Terezinha Oliveira, que bom você existir porque assim você não deixa nossa cultura morrer.Parabéns por escrever este texto.

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