Francisco Buarque de Hollanda: o moreno dos olhos d’água

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
18 de junho de 2022 às 11:14 0

O Brasil conheceu esse tímido cantor/compositor quando uma banda passou e “o velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço e dançou. A moça feia debruçou na janela pensando que a banda tocava pra ela”. Era 1966 e sua canção foi vencedora no Festival da Música Popular Brasileira apresentado pela TV Record. Em 1967, concorre com Roda Viva, que obtém o 3º lugar. Em 1968, ganha o III Festival Internacional da Canção com Sabiá, em parceria com Tom Jobim. Alguns anos depois, ele canta: “Eu bem que tenho ensaiado um progresso, virei cantor de festim Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso em Quixeramobim…”.

Ele diz: “dou duro toda semana, mas, finalmente é domingo naturalmente me vingo e vou me espalhar por aí”. Saibam que neste domingo, 19 de junho de 2022, esse cidadão ‘multiartes’ completa 78 anos de uma vida de sucessos na música, literatura, cinema e teatro. Por sua militância em prol da democracia e direitos humanos, tem o reconhecimento além fronteiras. Em 25 de março de 1996, é condecorado em Portugal com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique e recentemente recebe o Prêmio Camões, que é a maior honraria literária da língua portuguesa. O moço também é vitorioso no futebol. É craque do Politeama – esquadrão fundado por ele, sendo o dono do time, do campo e da bola; nas disputas “entre amigos” nunca foi derrotado. Dentre os times oficiais, é torcedor do Tricolor das Laranjeiras – o Fluminense.

Aos 9 anos foi morar na Itália com toda família, pois seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque, vai ensinar em Universidade de Roma. Retornam ao Brasil em 1960, indo morar na capital paulista. Chico estuda no colégio Sta. Cruz e tem suas primeiras crônicas publicadas no jornal do Colégio. Ingressa no curso de Arquitetura da USP em 1963 e dois anos depois abandona os estudos para se dedicar à música. Suas canções primam pela riqueza das figuras de linguagem, pelo lirismo e a temática do cotidiano ao romantismo e crítica social. “Tem mais samba no encontro que na espera, tem mais samba no porto que na vela, tem mais samba o perdão que a despedida, tem mais samba no chão do que na lua”. Ele fala da “gente humilde” como “Pedro pedreiro” e reclama que “a Rita levou seu sorriso, seu assunto e um bom disco do Noel”. Nos “dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, vem o pedido “não chore ainda não que eu tenho um violão e nós vamos cantar, felicidade aqui pode passar e ouvir e se ela for de samba há de querer ficar”. As mulheres de Atenas, Joana francesa, Ana de Amsterdan, Carolina, Januária e outras moças na janela fazem “com açúcar, com afeto o seu doce predileto”, pois “todo dia ela faz tudo sempre igual”. Ele quer é ir para o ensaio da Mangueira, Escola de Samba que o homenageou com o enredo de 1998.

O realismo da letra de Construção é antológico. Data de 1971:

  “Subiu a construção como se fosse máquina
    Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
    Tijolo com tijolo num desenho mágico
    Seus olhos embotados de cimento e lágrima

    Sentou pra descansar como se fosse sábado
    Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
    Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
    Dançou e gargalhou como se ouvisse música

    E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
    E flutuou no ar como se fosse um pássaro
    E se acabou no chão feito um pacote flácido
    Agonizou no meio do passeio público
    Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”

No cinema e teatro contribuiu com Roda Viva, Gota D’Água, Calabar – o Elogia da Traição, Os Saltimbancos, Bye, Bye Brasil, Quando o Carnaval Chegar, Ópera do Malandro e o Grande Circo Místico. Escreveu os livros Chapeuzinho Amarelo, Estorvo, Benjamim, Fazenda Modelo, Budapeste, Tantas Palavras, Leite Derramado, O Irmão Alemão, Essa Gente e Anos de Chumbo e Outros Contos. Retratando o contexto das arbitrariedades do Regime Militar, seu trabalho sofreu forte censura e até destruição de cenários e agressões físicas às pessoas que participavam dos espetáculos. Sua militância política visa denunciar a exploração sofrida pelos povos do Terceiro Mundo governados por prepostos das corporações multinacionais. Junto a líderes e ativistas da América Latina e África participou de ações em defesa da Democracia.

Em 1969, decidiu morar na Itália, em autoexílio dado o cerco que a Ditadura exercia aos seus trabalhos, mas as canções brotavam e traziam a poesia contestadora. Apesar de Você, Cálice e Jorge Maravilha: “E como já dizia Jorge Maravilha / Prenhe de razão / Mais vale uma filha na mão do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. É o recado para os oficiais algozes. A vida e a obra do brasileiro Francisco Buarque de Hollanda preencheria uma série de livros, daí escolhi finalizar esse texto com sua canção Angélica, que emociona ao lembrarmos da tragédia que envolveu uma das muitas famílias destroçadas pela repressão da Ditadura – o jovem Stuart Angel e sua esposa Sônia são presos e mortos. Os corpos desaparecidos e Zuzu Angel, a mãe de Stuart, inicia a busca pelos corpos e por justiça até que Zuzu também é assassinada. Pra ela Chico compôs e gravou ANGÉLICA:

  “Quem é essa mulher que canta sempre esse estribilho?
    Só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar
    Quem é essa mulher que canta sempre esse lamento?”

E ao meu caro ídolo, que preenche minha vida de poesia e sonoridade desde a minha adolescência e continua nos orgulhando com sua coerência aos princípios éticos, envio o meu abraço e votos de Felicidades – Parabéns, Francisco!

Dedico este texto à Maíra, Isadora e Bruno Paulino.

Foto: Francisco Proner/Divulgação

Para conferir mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira, clique AQUI.

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