Junho no Nordeste é mês de devoção e festanças

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
26 de junho de 2022 às 11:21

“Chegou a hora da fogueira! É noite de São João…
“Fica o céu todo estrelado pintadinho de balão…”

(Lamartine Babo)

Junho é o mês mais festivo do ano, especialmente no Nordeste brasileiro. São comemorados os santos Antônio, João e Pedro, e as celebrações religiosas são acompanhadas de animados eventos populares, pois suas origens vêm das atividades agrárias dos povos antigos que se reuniam para realizar, em mutirão, a colheita e a partilha do que fora cultivado. Nessas ocasiões se fortaleciam as expressões da cultura local, especialmente a culinária, músicas e danças, além de outros traços típicos. A Igreja Católica aproveitou a coincidência das datas referentes aos três santos que reúnem muito seguidores e inseriu o ritual religioso ao calendário tradicional.

“Era a festa da alegria / São João
Tinha tanta poesia / São João
Tinha mais animação, mais amor, mais emoção
Eu não sei se eu mudei ou mudou o São João …”

(Luiz Gonzaga e Zé Fernandes)

Os principais traços característicos dessas datas são os sons de sanfona, triângulo e pandeiro; a variedade de ritmos: baião, forró, xote, xaxado etc; as danças de grupos de quadrilhas; e outros que vão desaparecendo como as fogueiras, adivinhações e as simpatias. A fogueira é ligada ao nascimento de São João, pois ficou combinado que o aviso do nascimento do filho de Zacarias e Isabel se daria pela luz de uma fogueira. O povo se reúne nas quermesses com barraquinhas enfeitadas de balões e bandeirinhas oferecendo a culinária típica do período: licores, bolos, canjica, pamonha, mugunzá, pé de moleque, paçoca, arroz doce, espiga de milho cozida ou assada, batata doce e muito mais. Nas comunidades rurais e em pequenas cidades essas comemorações se mantêm como um ato de resistência a padrões massificados que a mídia impõe, além do espaço urbano dificultar as fogueiras em torno das quais surgiam “padrinhos” e “madrinhas”, além de assar as espigas de milho e batatas doce. Em outras décadas essas datas reuniam familiares, amigos e conterrâneos para reafirmar os costumes locais e assim perpetuar as tradições. As mudanças estão enfraquecendo um grande valor da coletividade que é a “identidade cultural” de um grupo social. Outro aspecto negativo é a não valorização de artistas da localidade que tem talento e precisam mostrá-lo. A invasão do chamado “forró de plástico” é comandada por interesses financeiros de marqueteiros e empresários destas novas bandas de forró “ilegítimo”. Mas o pior é que a fragilização dos traços que unem as comunidades repercute no pertencimento ao grupo e sua força de resistência. Os seguidores de Luiz Gonzaga são deixados de lado até em centros que realizam grandes eventos juninos como Caruaru e Campina Grande. Os grupos de quadrilheiros vem revestidos de inovações estéticas e deixando de lado a espontânea participação popular. Por tudo isso sinto saudades dos festejos antigos

“… São João é isso enfeitar uma paioça
E dança coco no terreiro
São João é isso fazer adivinhação
É ser compadre de alguém botar um xodó de lado
E entra no coco também
São João é isso dá viva pra Santo Antônio
Ele é um santo de casa Viva a são Pedro e São João
E Viva o dono da casa”

(gravação de Jackson do Pandeiro)

Confira mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira AQUI.

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