Uma certa casa: é o início, meio e o recomeço

Terezinha Oliveira • Colunista do Repórter Ceará
6 de agosto de 2022 às 10:25 1

Em um lugar chamado “Coração”, devido à sua centralidade geodésica, existe uma casa com a missão de ser um Centro de Referência Sociológico, Histórico e Cultural, abrangendo a vida e a memória de Antônio Conselheiro. Não tenho a data de construção da Casa, mas é sabido que em 13 de março de 1830, nasceu o menino batizado com o nome de Antônio Vicente Mendes Maciel. O pai queria vê-lo padre e o destino o levou à peregrinação, espalhando o evangelho e esperanças de uma terra prometida. O Sertão foi o espaço onde ele e os seguidores buscaram a nova Canaã e se estabeleceram às margens do Rio Vaza Barris, no Belo Monte baiano, onde estava abandonada a Fazenda Canudos.

No lugar onde ele nasceu também havia um rio, bem atrás de sua casa; e ao poente estava um serrote parecido com o de Belo Monte. Esse lugar, de onde ele saiu aos 27 anos, era a Vila Nova de Campo Maior e o rio era o Ibú. Hoje o rio e a cidade têm o nome de Quixeramobim. A casa resistiu, mas o rio agoniza pelo descaso com quem nos deu vida. O Ibú foi o caminho dos tangedores de gado, a fonte de alimentos e insumo para a pecuária e lavoura. A casa resistiu pela sorte de ter pertencido a uma família que não trazia a gana demolidora dos ignorantes vilões do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Colonial. Um desses moradores foi o arquiteto e compositor Fausto Nilo e em uma de suas letras faz a ligação da casa e o rio

“Casa tudo azul eu me lembro de você
Mas hoje foi difícil lhe deixar
Todo amor que havia em meu retrato podes ver
E tudo que eu vivi nessa janela, vai passar 
Há um velho rio que haveremos de esquecer
Mesmo que essa casa não resista à solidão …”
Fausto Nilo, cantor, compositor e arquiteto

O imóvel nº 210 da rua Cônego Aureliano Mota é uma das pouquíssimas edificações de relevância histórica e arquitetônica da área Central, onde surgiu a vila – atual cidade de Quixeramobim. O ano de 1830 deu início a história que a casa impulsionou a partir de 1857 e foi culminar no massacre de 1897. A derradeira agonia de um sonho igualitário. O personagem central, os demais envolvidos e os fatos reais eram de pouco interesse para os conterrâneos de Antônio. Nas escolas não eram comentados, em conversas os fatos eram distorcidos sempre desfavorecendo os feitos do peregrino, e assim foi permanecendo apenas a casa e muitos boatos. Por aqui até estranhavam se algum forasteiro indagava sobre Conselheiro, pois em plagas distantes, estudiosos conheciam e pesquisavam. O cinema e a televisão repercutiram a saga deste quixeramobinense, ampliando o raio de interesse em conhecê-lo. Mas o fator fundamental para que o Líder de Canudos fosse “descoberto” por seus conterrâneos surgiu com o grupo do Movimento Antônio Conselheiro – MAC, incansáveis propagadores das ideias e feitos referentes ao Arraial de Canudos, estabelecendo o intercâmbio Quixeramobim – Canudos, cada vez mais legitimado.

Se o contexto inicial fora desalentador, as últimas décadas trouxeram pequenos avanços com novas adesões. O envolvimento da Comunidade Escolar e o reconhecimento da casa como um Patrimônio Histórico e Arquitetônico do Estado do Ceará, marcaram um novo olhar sobre esse bem e a trajetória do seu mais ilustre morador.

Agora é o recomeço; o honroso destino dessa casa promete outra revolução – o fortalecimento da história e da cultura local; um espaço para discussão democrática de políticas públicas, o acesso pelos movimentos populares e um leque de outras ações poderão surgir. É o resgate de uma grande dívida com os mártires de Canudos. É um tempo de esperanças e júbilo começando.

Obs: apenas uma coisa me entristece – o rio agonizante não ter renascido com a bela casa

Para conferir mais artigos na coluna de Terezinha Oliveira, clique AQUI.

Foto: Divulgação/Secult

1 Comentário
  1. Helenice Araújo Costa disse:

    Parabéns, querida Terezinha. Um belíssimo texto. Muito importante esse resgate da história. E que pena o rio estar agonizante! Mais uma luta a ser travada. Saudade daí. Saudade desse coração do Ceará que está no meu coração. Um grande abraço.

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