Editorial: Clébio Pavone e a gestão das promessas não cumpridas

26 de julho de 2018 às 09:56

Há quase dois anos, tinha início, por estas bandas do sertão, uma das mais acirradas disputas eleitorais que Quixeramobim já registrara em toda sua história democrática. De um lado, Clébio Pavone, um vereador com cinco mandatos seguidos, na luta para se tornar o chefe do executivo municipal, e do outro, Cirilo Pimenta, um tradicional político da região, três vezes deputado estadual, em busca do seu quarto mandato à frente da prefeitura.

O resultado desta disputa já é de todos conhecido. Por uma margem de pouco mais de dois mil votos, o primeiro venceu o segundo, retirando do poder um grupo político que controlou a cidade por duas décadas ininterruptas, e do qual, Clébio por muito tempo fez parte, tendo, inclusive, assumido a prefeitura temporariamente em 2013, quando veio a ser picado pela mosca azul e começou, não somente a sonhar, mas também a trabalhar para ocupar o lugar do seu aliado, com quem romperia meses depois.

A ascensão de Clébio se deu, dentre outros motivos, porque ele soube surfar sobre a onda de renovação política que inundou o município no sequíssimo ano de 2016. Com isso, reuniu caras novas e levou para os palanques um novo projeto de governo, que era altamente populista, repleto de promessas irrealizáveis, alimentado por uma pregação de dias melhores voltada aos “mais pobres e miseráveis”, que acabou lhe rendendo grande apoio popular.

“Tenham certeza que tudo aquilo que foi prometido será cumprido”, declarou Clébio, em praça pública, poucas horas após o fim da apuração das urnas confirmar a sua vitória. O “tudo aquilo” a que ele se referia em seu discurso compreende, nada mais, nada menos que as 185 promessas feitas durante a sua campanha. A maior parte dessas promessas até hoje não foi cumprida, e, ao que tudo indica, nunca o será.

A própria realidade tem se encarregado de frustrar o cumprimento de algumas dessas promessas, por serem elas inexecutáveis, dadas as condições econômicas e financeiras do município. Um dos exemplos que revelam de forma nítida esta desconexão com a realidade é a criação de um novo Bolsa Família em um município que gasta mais de 60% de suas Receitas Correntes Líquidas (RCL) com o funcionalismo público e que tem uma dívida consolidada que corresponde a 55% das RCL.

As muitas promessas feitas durante a campanha eleitoral abrangem diferentes segmentos da administração pública. Na área da Assistência Social, por exemplo, Clébio chegou a prometer – além da já citada criação de um Bolsa Família Municipal – que continuaria apoiando a Casa do Ancião, um recinto que acolhe os idosos desamparados do município e que se sustenta, basicamente, com os repasses da prefeitura. Mas ao inverso disto, no primeiro trimestre deste ano, o seu governo cortou a verba destinada ao abrigo, o que chegou a ameaçar o funcionamento da instituição.

Na Educação, Clébio prometeu garantir o transporte escolar aos universitários que estudam em Quixadá e realizar eleições diretas para os cargos de diretores das escolas municipais. Mas na direção contrária, os diretores continuaram a ser escolhidos por indicação política, e, desde 2017, os estudantes universitários passaram a enfrentar inúmeras dificuldades para chegar até os seus locais de aula, principalmente, por conta das várias paralisações da frota de veículos, provocadas, em sua maioria, pelos atrasos no pagamento dos motoristas.

A área da Infraestrutura é outra em que se pode notar uma distância abismal entre o que foi prometido e o que tem sido feito. Asfaltamento das principais ruas e avenidas da cidade; melhoria da iluminação pública; correção da pavimentação da sede e dos distritos e reforma de quadras esportivas e outros espaços de lazer eram itens que estavam sempre presentes nos folhetos ou eram citados durante os comícios. Mas a realidade do pós-campanha tem sido outra.

De acordo com levantamento feito pelo site Repórter Ceará, mais de duas dezenas de praças e quadras da cidade encontram-se completamente abandonadas pelo poder público. Ainda conforme o mesmo site, são mais de 30 obras paralisadas no interior e na sede do município, a maior parte delas com investimento inicial que ultrapassa a faixa de um milhão. Quanto à iluminação, a persistente falta de insumos tem impedido a realização dos trabalhos de manutenção. E nas vias públicas, as chuvas e as obras de saneamento básico fizeram com que os buracos se multiplicassem.

Além disto, e por ironia do destino, Clébio recebeu grande apoio da classe médica que atua no município, e foi na área da Saúde que tudo, ou quase tudo, desandou. Nos comícios e nas carreatas, Pavone repetia que, se eleito, Quixeramobim teria uma “Saúde Padrão Suíça”, prometendo que reestruturaria os postos de saúde da cidade e do interior, que não faltariam medicamentos, e que o Programa Saúde da Família teria sua cobertura ampliada a 100%.

Mas a prefeitura deu com os burros n’água e foi na contramão de tudo que havia prometido, tornando marca registrada desta gestão a falta de médicos, enfermeiras e dentistas; postos de saúde fechados; e falta de medicamentos e de produtos de limpeza e de higiene pessoal nas unidades de Saúde. Isto sem contar os equipamentos quebrados, os atrasos no pagamento dos profissionais da área e a consequente fuga de médicos especialistas.

Afora tudo isto, o prefeito Clébio Pavone também prometeu criar uma Bolsa Universidade, convocar os aprovados no concurso público realizado em 2014, construir casas populares, implantar um terminal rodoviário em torno do mercado público, criar uma Guarda Municipal e uma Secretaria de Segurança Pública. Contudo, tudo isto parece estar cada vez mais longe de se tornar realidade, graças a uma mistura de deficiência técnica, escassez de recursos e sucessivos erros de gestão.

O que faltou em prudência e realismo durante a campanha, tem sobrado em improviso e frustração durante estes primeiros anos de gestão. Um governo que ascendeu ao poder prometendo transparência, gestão democrática e ajuda aos mais pobres, têm falhado em sua missão original. A mudança, de fato, está acontecendo, mas na direção contrária à que havia sido prometida nas urnas. Porém, ainda nos resta certa dose de esperança de que algum aprendizado tenha sido gerado a partir de tantos erros, e que o mesmo se mostre útil à melhoria da cidade neste resto de mandato.

Editorial do Repórter Ceará

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